Month: November 2016

Mariana e a lira

Marina é atriz. No começo da carreira ela tinha medo de não conseguir decorar textos por causa da baixa visão, mas logo estrelou peças e ganhou prêmios. Marina se afastou dos palcos para ser mãe do menino prodígio João Miguel. Há anos afastada dos palcos, ela ansiava pelo calor da plateia.

Foi assim que, sem nunca ter treinado circo, Marina entrou para a Cia iLitda. O projeto Circo Sem Limites previa a capacitação de artistas com deficiência para o trabalho circense. No pouco tempo que se tinha para capacitar artistas e montar um espetáculo, Marina rapidamente experimentou diversos aparelhos e se encontrou na lira.

Sua evolução é impressionante. Junto com os instrutores Washington e Wanderson (foto), ela criou uma rotina no aparelho para dar vida a uma das três Julietas do espetáculo. A Julieta de Marina é romântica, inspirada na cena do balcão, na troca de flertes e juras de amor do casal apaixonado.

A paixão pelo palco e pelo circo está em cada figura apresentada por Marina na lira.

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Pesquisa

Antes do espetáculo sequer tomar forma, muita pesquisa é envolvida. O desafio de adaptar Shakespeare – não uma ou duas peças, mas 5 peças importantes do autor – era principalmente fugir do óbvio e encontrar um meio de transformar as palavras shakesperianas em números de circenses.

Confira um dos exercícios de improviso cheio de sensibilidade que nossa querida Ana Luiza realizou:

Ana Luiza é trapezista, atriz e judoca medalhista. Ana também é cega. No vídeo, Tayane e o instrutor Garcez, que prepara as acrobacias junto com Ana, cuidam da segurança da artista para que ela execute o exercício dentro da área de proteção.

Ao trabalhar com artistas com deficiência, temos que ter uma atenção dobrada com a segurança, pois a percepção e necessidade de cada um é única. É necessário muita conversa entre o artista, seus colegas e instrutores para que o artista com deficiência sinta-se confortável e seguro em seu ambiente de trabalho, ainda mais no circo, onde o risco se intensifica ainda mais.

Um pouco de Hamlet

Antes de partir para o improviso, um dos estímulos usados pelo diretor Zé Alex foi encontrar trechos dos textos de Shakespeare que pudessem ser adaptados para o circo. Neste dia, uma leitura da cena de abertura de Hamlet, com os dois guardas amedrontados procurando pelo fantasma do rei.

A cena gerou um número de trapézio com perna de pau estrelado por Marcos e Maycow.

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Viewpoints

Viewpoints

Os ensaios iniciais da Cia iLtda começaram com a aplicação da técnica de viewpoints pelo codiretor Zé Alex. A técnica ajuda a construir um vocabulário para palcos a partir do pensamento da ação e atuação por meio do movimento e do gesto, É uma técnica de composição criada inicialmente como método de improviso pela coreógrafa Mary Overlie, nos anos 1970. Posteriormente, ela foi adaptada para os palcos teatrais onde teve grande aderência.

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Zé Alex entrou em contato com o método em Nova Iorque, onde estudou e agora embarca junto com nossos artistas sem limites no desafio de levar a técnica para o circo.

Os primeiros exercícios consistiram em criar grids (grades) dentro de um espaço e por meio de diversos estímulos do ambiente, os artistas iam interagindo e improvisando. Em um primeiro momento, cada um improvisava sozinho e em linha reta pelo grid, mas conforme os exercícios foram evoluindo, eles passaram a improvisar uns com os outros e também com o ambiente, sempre observando os 9 viewpoints: Tempo, Duração, Resposta Sinestésica, Repetição, Espaço, Forma, Gesto, Arquitetura, Relação Espacial e Topografia

 

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